27-02

 

* Rosa Duarte

 

Escrever é dos atos mais abnegados que conheço. Deixamos de estar presentes no circuito diário e autossacrificamo-nos pela causa, entregando-nos à ausência física. Como um pretexto para não socializar. Para não estarmos, quando se trata de um ato cabal de entrega. Como também é o de pintar um quadro ou compor uma música ou decorar uma iguaria. Sempre observadores do fenómeno da existência, existindo para pensá-la e interpretá-la, num ângulo novo, com uma microcâmara cinematográfica apensa ao pensamento que vai viajando, registando e recriando todos os lugares e situações representadas na mente. Então dei por mim a pensar: como seria o cinema sem texto, o teatro sem texto, a conversa sem texto, a pessoa sem texto, o amor sem texto? Escrever um texto com maturação é um fenómeno de criação solitária. Muito gratificante, quando resulta em beleza e dignidade. Muito estruturante para a formação cultural de uma sociedade. Porque as palavras escritas são saboreadas pelos apreciadores como o mosto do bom vinho amiudamente corrigido com um açúcar que se quer finamente escolhido. As palavras são escolhidas, ajustadas, substituídas, retocadas, temperadas numa criatividade individual e aficionada. Mesmo num livro de coautoria. Contudo, há textos que não queremos partilhar, o que pode significar que ainda não estamos preparados para os expormos, por causa do assunto ou por outro motivo, sobretudo a um grupo alargado de pessoas ou mesmo ao público anónimo. Ou que iremos simplesmente retocá-lo um dia. Contudo, quando escrevemos e sentimos a nossa escrita como uma conversa bem conduzida ou uma história empolgante ou uma experiência reflexiva, queremos partilhar o nosso ponto de vista pela interpretação que apresentamos sobre uma realidade, e a nossa vontade é que todos acedam a esse escrito de modo fácil e voluntário. Sem pressões nem condições. Ouvindo/lendo com possibilidade de comentar. Para o autor, é agradável receber algum «feedback» de quem lê, mesmo que de forma muito apressada ou desprendida.

 

O ato de escrita será sempre intemporal. A sua prática é cultural, porque é desenvolvida por indivíduos com influências culturais, e porque a procuramos como suporte da nossa identidade cultural. Outras formas de utilização do código linguístico podem proliferar na sociedade em geral, como o telemóvel, o facebook, a tv por cabo… mas o ato de escrita não se detém, mesmo nos mais inspirados sms ou nos murais das redes sociais; extravasa as modas e as necessidades de consumo das conjunturas e mantém-se radicado à intimidade do texto pensado e construído como ato voluntário e trabalhado com apreço como um pedaço de madeira artesanal na oficina, que se quer com mais ou menos relevos ou motivos decorativos, mas com um propósito funcional ou artístico determinado que possa despertar o entusiasmo de apreciação estética e crítica. Não precisando de aspirar ou surpreender o público fabricando tábuas de lei… Porque na dimensão cultural inevitável e consciente do genuíno ato de escrita, entendo que há um intento maior, que é transcultural pela sua universalidade comprometida com o ato de escrever e reescrever histórias, que é um ato permanente e subjacente à sobrevivência das sociedades.


Julgo que compreendemos, então, que a evolução do homem como ser social, em qualquer comunidade educativa ou laboral, apenas obedece ao ritmo da sua capacidade de escrever a sua história cerzida com o sentido claro do serviço ao outro, sem demagogias ou benefícios exclusivistas, com o talento próprio e a sua vontade interventiva à disposição do grupo. Que só o acolhe verdadeiramente quando proclama valores basilares da livre partilha e do mérito alargado, possíveis de hastear unicamente como troféus coletivos no final de cada etapa de cada projeto ou de diversas atividades formativas, sempre numa atitude disseminada de entrega (re)criativa.

 

* Professora do Ensino Secundário                                                                                       



publicado por Correio da Educação às 14:23
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