15-03

 

* José Matias Alves

 

 

Vivemos um tempo difícil e complexo.  Ser professor é cada vez mais exigente num contexto em que muitos alunos não veem o sentido da escola, nem sequer as promessas que a tornariam suportável. Em que algumas (muitas?) famílias têm dificuldade em valorizar a escola por palavras e atos, arruinando assim muito do esforço desenvolvido pelos professores. E no campo especificamente laboral, muito tempo perdemos com enredos normativos e  burocráticos que nos desviam do essencial que tem de ser procurar fazer com que os alunos aprendam o máximo que lhes for possível.

Neste contexto, temos de ter a coragem de dizer "basta". Dizer basta à irresponsabilidade legislativa que abafa a criatividade das escolas e dos professores. Dizer basta a um sistema de avaliação docente que continua a fazer de conta que está promover a qualidade do ensino, das aprendizagens, a excelência educativa. Dizer basta a tiques autoritários (venham eles de onde vierem) que nos limitam na capacidade de pensar, agir, cooperar  e divergir. E que muitas vezes até nos ameaçam na nossa identidade cívica e profissional. Dizer basta à repetida irresponsabilidade de pais que se demitem da sua mais básica função educativa. Dizer basta ao excessivo simulacro, à excessiva hipocrisia organizada que arruína a coerência e a legitimidade da ação.

Dizer basta é um sinal não apenas da nossa cidadania organizacional. É um sinal de um imperativo educativo que tem de se basear na ética, na verdade, na honestidade, na justiça e na justeza. Porque ser professor também é isto: rejeitar uma ordem vassálica e praticar a liberdade livre que nos realiza como seres humanos.

 

* José Matias Alves é professor do Ensino Secundário, mestre em Administração Escolar pela Universidade do Minho, doutor em Educação pela Universidade Católica Portuguesa e professor convidado desta instituição.



publicado por Correio da Educação às 10:00
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10 comentários:
De Maria José Leite a 22 de Março de 2011 às 21:25
Completamente de acordo!!Chega de tanta subserviência venha ela de onde vier...deixem ensinar e ter o mínimo de prazer no exercício da profissão.Ser educador e professor está correcto mas só educador não!!É altura de aumentar as exigências e responsabilizar alunos e pais...o processo educativo estende-se a toda a comunidade,formem-se adolescentes responsáveis que se tornem adultos com verdadeiro sentido cívico.Fim ao experimentalismo educativo,basta de tanta incompetência!


De Teresa Matos a 22 de Março de 2011 às 21:46
Não podia estar mais de acordo!!! A minha vocação tornou-se num pesadelo e a frustração é cada vez mais uma realidade que enfrento todos os dias.


De OPTD a 22 de Março de 2011 às 22:36
Já não deve faltar muito para a invenção da omelete sem ovos. Foi a esta conclusão que cheguei hoje após a minha primeira aula assistida deste ano.
Estudei durante 12 anos, fiz uma licenciatura de quatro anos mais dois numa faculdade pública, sendo o último de estágio exigente e real de 10 meses numa escola do Barreiro com alunos de Português e Francês do 9º e 12º anos e uma dura orientadora autora de Programas. Desde 1998 que trabalho como contratado (e não é dizer pouco) com os alunos que ninguém quis, aprendendo no campo difícil da experiência aquilo que nada nos pode preparar, na Moita, no Seixal, em Chelas, na Amadora, na Musgueira... Fui atirado para o Ensino Especial, o Português Língua Não Materna, os apoios a disléxicos, as direcções de turma impossíveis e os encarregados de educação mais ausentes, os horários mais curtos e desordenados e os níveis mais diversos, as substituições temporárias, os mini-concursos de 6h semanais. Sempre a trabalhar, procurei a formação que não tinha para as áreas que me atribuíram, em Portugal e no estrangeiro, terminei um mestrado em didáctica e continuo a estudar e a investir na minha ocupação, já que cada vez mais parece não poder ser profissão. Li os melhores pedagogos, aprendi com os melhores professores, fui observado pelos melhores colegas, que comigo partilharam experiência e bom senso, vivi com centenas e centenas de alunos tudo o que de bom e mau pode acontecer entre as quatro paredes da sala de aula.
E ainda assim, sempre fui fazendo as omeletes pedidas, com mais ou menos ovos, ao sabor das vontades dos clientes e das matérias disponíveis.
Hoje, também. Mas sem ovos quase.
Planifiquei atempadamente a aula, privilegiando todas as competências de acordo com os Programas, preparei honestamente os materiais adequados, nas abordagens actuais para o ensino do conhecimento explícito da Língua, de forma activa, comunicativa, interactiva e expliquei aos alunos o objectivo e significado da aula.
Mas não contava completamente com a instabilidade emocional e a falta de educação de alguns dos meus alunos face ao privilégio que é aprender, independentemente dos problemas pessoais graves que possam ter e que não desculpam toda e qualquer atitude.
Por isso, porque já evoluíram minimamente e porque conheço muito bem os meus alunos para além da realidade da sala, fui tolerante, flexível, ignorei, por vezes, comportamentos disruptivos e inadequados de alguns alunos para não privar todos os alunos da aula que eles, e eu, merecíamos ter.
Tive de fazer essa escolha difícil e terrível entre parar a aula ou continuar o meu projecto de aula que apenas se concretiza com a ajuda ou a oposição dos meus alunos, tive de gerir interrupções e pressões, contingências, sensibilidades e ausências, dificuldades de integração, de desenvolvimento, questões exteriores à sala e ao meu trabalho que influenciam descontroladamente o que faço.
Cumpri o plano no conteúdo, mas não na forma que gostaria e que desejava e poderia fazer. Mas cumpri-o.
Usei um estilo de comunicação afirmativo, valorizando os esforços, reagindo com serenidade, escutando, elogiando e criticando construtivamente, dialogando, resolvendo conflitos, respeitando os outros, usando perguntas abertas, sugestivas e positivas. Tive um discurso claro e simples e um estilo participativo, corrigindo, sem ofender, orientando e motivando. Promovi a auto e heteroavaliação, a avaliação formativa, a participação de todos, a todos acompanhando, com humor e amor, centrando a atenção no importante, semeando bons exemplos e esperando uma boa colheita que tarda.
Diz Dias Agudo na revista Labor em Fevereiro de 1954, que as virtudes magistrais do professor são a paciência, a humildade, a prudência, a liberalidade, a justiça, a coerência, a esperança, a elasticidade, a recta razão, a responsabilidade, a personalidade e a liberdade. Estamos em 2011 e não tenho em mim tamanhas virtudes, apenas a convicção de que faço sempre o melhor que posso, como posso, exigindo o máximo de mim e acarretando muitas vezes culpas que não são apenas minhas, consciente de que estou a fazer o que é pedagogicamente certo, mesmo quando a realidade do mundo nos parece e


De OPTD a 22 de Março de 2011 às 22:38
Continuação...

Estamos em 2011 e não tenho em mim tamanhas virtudes, apenas a convicção de que faço sempre o melhor que posso, como posso, exigindo o máximo de mim e acarretando muitas vezes culpas que não são apenas minhas, consciente de que estou a fazer o que é pedagogicamente certo, mesmo quando a realidade do mundo nos parece exigir o contrário.
É este o verdadeiro dilema do professor. Se faço bem, de acordo com o que é suposto, por que tenho de ser eu a mudar? O objectivo não é mudar os alunos?
Numa Escola onde tudo se pede ao Professor, num «transbordamento» de funções como diz o Professor António Nóvoa, como continuar e como trabalhar e como avaliar tudo isto objectivamente?
Excelentes professores e cozinheiros, são os que fazem omeletes sem ovos.


De José Martins a 23 de Março de 2011 às 23:52
Eu acho que não chegou o tempo de dizer basta. Chegou o tempo de FAZER basta, seja lá isso o que for. Porque se não, os governantes conseguem o seu objectivo: tornar-nos num povo ignorante, obediente e fácil de manipular. Infelizmente não a consegui-lo. Muitos pensam que estamos numa crise económica, mas é muito mais do que isso. É uma pressão ideológica. Basta ver o medo que está instalado nas escolas


De iphone 5 bumper a 22 de Janeiro de 2013 às 01:10
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De ThL Mobile phone a 16 de Agosto de 2013 às 04:34
Educação há muitos problemas, a responsabilidade do professor é muito importante


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It is true that the educators struggle to perform adequately their duties. The students do not see the importance to study. Moreover, at home, they do not get the appropriate appreciation.


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