28-03

 

* José Matias Alves

 


Desde há 3 anos que a avaliação do desempenho dos docentes tem estado sempre no centro da agenda e da turbulência educativa. Porque era impossível (como tive oportunidade de dizer e demonstrar), porque era burocrática e monstruosa (também por responsabilidade das próprias escolas), porque era um instrumento de persecução de autoridades que o não sabiam ser, porque minava os modos de ser professor, porque requeria um excessivo tempo (que era roubado ao essencial da profissão – ensinar-fazer aprender-avaliar – porque não tinha condições de realização por falta de conhecimentos e de preparação, porque o campo profissional estava minado por uma vasta desconfiança mútua.


Por razões de oportunidade (leia-se de oportunismo político), o PSD e toda a oposição parlamentar deliberou suspender a avaliação em curso. Há razões objetivas (e demonstráveis) que tornam evidente que este sistema de avaliação estava longe de concorrer para elevar as qualidades de ensino e das aprendizagens. Há evidências que permitem sustentar (de um geral e sem se poder generalizar) que os prejuízos estavam a ser maiores que os benefícios. E por isso, o discurso da indignação soa a uma manifesta falsidade.

Mas deve também dizer-se que esta suspensão se pode virar contra os professores. Porque se cria a ideia de que os professores, definitivamente, não querem ser avaliados. E são uma espécie de classe profissional pária. E isto pode ter muito nefastas consequências na imagem pública e, posteriormente, na ação política (cerceando e limitando ainda mais os direitos profissionais).


Por isso, temos de reivindicar uma avaliação com significado e sentido. Uma avaliação que aposte claramente na dimensão interna, formativa, colaborativa. Na construção de uma cultura profissional que se resgate da clausura, da solidão e do sofrimento profissional. Uma avaliação que esteja nas mãos dos professores. E que se distinga dos mecanismos de progressão na carreira (embora esteja necessariamente conectada). Mais do que celebrar o fim, temos de ousar um início. Antes que seja tarde demais.

 

* José Matias Alves é professor do Ensino Secundário, mestre em Administração Escolar pela Universidade do Minho, doutor em Educação pela Universidade Católica Portuguesa e professor convidado desta instituição.



publicado por Correio da Educação às 16:43
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13 comentários:
De Anónimo a 4 de Abril de 2011 às 23:54
Claro que há muitos aspectos a melhorar/mudar. Um deles, bastante controverso e que não colhe a unanimidade dos profs é a avaliação feita por pares. Não fiz nenhum estudo por isso é apenas uma opinião mas já ouvi repetidamente colegas que não aprovam esta modalidade. Existem de facto ( e usando uma linguagem militar) «soldados a avaliar generais». Parece-me que, tal como se profissionalizou (no sentido de se ter constituído uma carreira específica) o cargo de director ou inspector se deveria crira uma carreira de pessoas com perfi/formação adequada em supervisão que trouxessem à avaliação uma componente formativa/geradora de qualidade educativa. Ninguém pode dar aquilo que não tem. Se não se conhecem técnicas de supervisão como se podem observar e avaliar aulas?Como pode alguém que nunca teve aulas assistidas na sua formação conhecer técnicas de observação? Não passa de uma actividade amadora que, pela sua importância, deveria ser muito profissional e profissionalizada.


De anonimo a 5 de Abril de 2011 às 11:32
é pena é que só se fale na avaliação dos professores ... e não se fale na avaliação aos programas escolares, que os professores têm de leccionar desde a 1º ano. começa logo errado ... não se ensina os meninos a "empinar" ...coitadinhos! ... não vale a pena fazer trabalhos manuais ... porque se podem aleijar ...coitadinhos! ... e depois têm de aprender a ler e a escrever e matemática, pois o tempo é pouco! ...e para finalizar ...quase não têm tempo livre para brincar e gastar energias (coitados ... hiperactivos), é que também lhes faz falta ... e também lhes faz falta noções de civismo ... respeito para com o pessoal auxiliar (elas que limpem o que eles nem sequer deveriam se atrever) ... ..... bom acho que já saí do tema em causa


De Paulo a 6 de Abril de 2011 às 12:00
Pois, a si também me parece que faz falta uma grande dose de formação profissional! É por haver pessoas no ensino que falam da forma que fala (os meninos precisam de empinar... com a salvaguarda de que a memória é fundamental, de que servem conhecimentos empinados por um ou dois dias) que a avaliação chegou a este descalabro!


De anonimo a 9 de Abril de 2011 às 17:48
Três pontos de vista no seu comentário:
1-
o que sinto nos meninos que não memorizaram ...., é que quando chegam aos 20 e muitos e trintas anos, já estão tão/tanto ... ou mais gagás do que eu.
2-
aprendi no estágio que há várias fases cruciais de aprendizagem no crescimento do ser humano, como o "experimentar", o "empinar", o ..., o …, inferindo assim, no crescimento e nas aprendizagens dos meninos, que apesar de não entenderem o que lhes estão a ensinar à primeira como por ex: "se escreve uma palavra" ou ”o empinar de uma tabuada, pois esta tem sempre de ser explicada para que percebam o seu funcionamento/relação entre números" venha a servir para novas situações ... posteriores!
3-
a avaliação chegou a este descalabro! Qual das avaliação é que fala? A avaliação dos meninos ou a avaliação dos professores ou a avaliação dos programas lançados pelo ministério?


De João Frias a 5 de Abril de 2011 às 11:50
De facto, nós professores (como um todo), temos também muitas responsabilidades. Por exemplo: As universidades formadoras de professores nunca se entenderam, nem sequer num perfil de professor! MAS CONCORDO, TEMOS QUE RECOMEÇAR, JÁ! ...Para haver avaliação tem que haver, avaliação interna e externa. Tem que ser formativa no percurso e "sumativa" apenas no final de ciclos. E tem que haver um corpo de supervisores pedagógicos, especializados, que ajudem/coordenem as actividades avaliativas nas escolas. E, ainda,...! etc. , etc. , etc. ,... E todos os intervenientes devem ser ouvidos! Estamos em Democracia, lembram-se? Ou já não estamos? JF2011


De Márcia Rodrigues a 5 de Abril de 2011 às 12:07
Acho que a avaliação, quer dos professores quer de qualquer (e toda outra) profissão é fundamental. À partida essa avaliação deveria existir nem que apenas pessoal e introspectivamente, mas deve existir ainda de um modo formal: formativo, pedagógico, orientador e, porque não, sumativo quantitativa ou qualitativamente. Sim, o trabalho de arranque do ensino é solitário, maioritariamente. Contudo, pressupõe-se que funcione colectivamente ou num grupo mais alargado, chegando aos alunos. Em muitos momentos o professor sente essa solidão que, por vezes, face a inseguranças nos resultados, pode minar o sucesso dos resultados e a tal avaliação pessoal. Quem está de fora observa os processos de uma forma mais objectiva- ou deveria fazê-lo - logo, seria importante ter essa perspectiva acerca dos processos de ensino individuais ou dos grupos de professores de cada escola: analisar o que está a correr bem e porque funciona e o que está a correr menos bem, porque falha e como melhorar, mas pensando quer em resultados numéricos (estatísticos) para alunos e professores quer em aspectos concretos da aprendizagem enquanto preparação de cada indivíduo para a vida real. Como fazê-lo? Não sei verdadeiramente, mas creio existirem muitos exemplos a observar, sobre como não fazer, o que falhou e como fazer talvez, porque algo resultou. Muitos países abordaram e implementaram estratégias a este nível com melhores e/ou piores resultados. Há que reflectir sobre essas práticas - antes de as implementar. Eu, como docente, sei o que não quero e o que quero para mim e para os meus alunos; eu, como mãe, sei o que quero e o que não quero para os meus filhos. Gostaria que quem está à frente das implementações e mudanças efectivas neste país e neste campo pensasse como pai/mãe ecomo educador(a). Creio que seria meio caminho andado em frente para o futuro.


De jose a 5 de Abril de 2011 às 16:31
É verdade! A avaliação é uma necessidade em tudo: para a mudança e para a melhoria. A observação de aulas e o trabalho reflexivo, uma urgência para a actualização dos docentes.
Concordo que uma avaliação séria é tão complexa que só uma especialização em supervisão (com especialistas também eles oriundos de várias áreas científicas) dará a resposta que se exige e será o indicado...


De Anónimo a 20 de Abril de 2011 às 23:21
Pois eu acho que os professores já são avaliados pelos pais dos alunos. Eles acompanham, à lupa, todo o processo de ensino/aprendizagem dos seus filhos e não admitem falhas dos professores. Se isso acontecer, julgam -nos e fazem queixa de imediato na direcção. Por isso, o professor não pode falhar. Todos os dias, prepara com todo o cuidado as suas aulas para não falhar. E passa muitas noites a reflectir na maneira de melhos resolver os problemas dos alunos sem falhar. Faz reflexões e mais reflexões sobre a maneira de melhorar o comportamento e/ou o aproveitamento dos seus alunos.
Concluindo, os professores já têm a avaliação dos pais que, a meu ver, seria a melhor, se fosse uma avaliação justa. Mas não é. Se os filhos são bons alunos é mérito deles, se são maus alunos, a culpa é dos professores que não ensinam convenientemente. O.B.


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