06-05

 

* José Matias Alves

 

 

Vivemos num tempo triste de excesso de retórica, de hipocrisia, e de mentiras. Num tempo de pobreza de práticas de honradez, verticalidade e de verdade. Num tempo de manipulação de números, de usura, de desigualdades, de corrupção moral e ética. Vivemos na periferia da cidadania crítica, nas margens da lucidez e da exigência. Numa agonia deprimente.


Vivemos um tempo de (novas) escolhas. E que deveria ser, acima de tudo, um tempo de exigência. Uma exigência de verdade. Uma exigência de trabalho. Uma exigência de humildade. Uma exigência de escuta. Uma exigência de autonomia e de responsabilidade.


No campo da educação, enuncio estas cinco basilares exigências. Uma exigência de verdade nos modos de gerir o currículo, no fazer aprender os alunos, na avaliação das aprendizagens, na certificação de competências.


Uma exigência de trabalho na atualização científica e pedagógica dos professores (e voltando a permitir e incitar ao esforço individual de capacitação e atualização), nas aprendizagens dos alunos, na implicação e responsabilidade dos pais.


Uma exigência de humildade nos modos de ensinar, reconhecendo os limites do conhecimento, a fragilidade das tecnologias educativas, a necessidade do diálogo que nos promove e enriquece.


Uma exigência de escuta para ver e sentir as singularidades e as necessidades do outro, para o incluir no processo educativo, para o convocar para sentido do trabalho escolar, para o conhecer e reconhecer.


Uma exigência de autonomia e de responsabilidade. Porque sem estes nomes (estas práticas) a educação é impossível. E só restarão as cinzas de um simulacro e de um engano que nos vai destruindo.


Neste tempo de escolhas, saibamos ver, reparar, intervir. Elevemos a nossa capacidade crítica, a nossa capacidade de autoria, a nossa vontade de criação. Se queremos sobreviver a este negro tempo do quase colapso da respiração cívica.


* José Matias Alves é professor do Ensino Secundário, mestre em Administração Escolar pela Universidade do Minho, doutor em Educação pela Universidade Católica Portuguesa e professor convidado desta instituição.



publicado por Correio da Educação às 16:35
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7 comentários:
De Carmo a 10 de Maio de 2011 às 22:26
Felicito-o pela frontalidade com que abordou o momento que se vive na educação, em Portugal.


De Raquel Costa a 11 de Maio de 2011 às 01:05
Mesmo em Moçambique, as suas palavras atravessam mares. Admirável!
De facto, o educador já não está na posição predominante e não se sujeita à submissão. Já nem sequer está numa situação de segurança. Pode estar pois, à altura de assumir o eventual conflito. Conflito social, económico, cultural. O educador é vulnerável e sabe-o. É um modelo que se adopta ou que se rejeita, mas que não deixa indiferente. Quer ele o queira ou não, é um marco de sinalização nas estradas, um farol, no sentido simbólico de Baudelaire , que guia (ou se receia). E continuando com o quadro da espera-nça , conhecendo os bancos de areia (de Pinda , por exemplo), há que abrir os olhos e procurar a luz, ter tempo e fechar os olhos com lucidez, para entrar no porto (de Memba , para continuar o desenho), entender o cheiro do mar, a tranquilidade das sessões de formação permanente, o dia a dia com o outro, com os alunos, connosco. Com a certeza que no cais, o educador é o ponto de contacto entre o aluno e o mundo exterior, só ele pode fazer chegar o outro ao princípio da realidade, levando-o a criar com os outros as normas de funcionamento das relações e a respeitar o quadro estruturado das exigências estabelecido pela sociedade, quase comun-idade .


De IC a 11 de Maio de 2011 às 05:11
Texto belíssimo.
Que este tempo seja de exigência, mas, previamente, de lucidez.


De Ermelinda Silva a 11 de Maio de 2011 às 17:12
Revejo-me inteiramente no que diz.
Que pena calhar-nos este tempo de trevas... Todos os dias me pergunto que posso eu fazer... É que todos somos poucos... mas não desisto!


De Ana Régio de Almeida a 12 de Maio de 2011 às 23:01
Obrigada pelas suas palavras. É sempre bom saber que há quem partilhe e preserve os mesmos valores.
Ana Régio


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