18-06

1. Por estes dias, o centro de gravidade do mundo desloca-se para a zona do Cabo, primeiro, das Tormentas, e, depois, eufemisticamente, baptizado pelos Portugueses da Boa Esperança. Todavia, devido ao milagre das novas tecnologias da informação, a África do Sul entra-nos pela casa dentro e de modo quase mais real do que o vizinho da frente…

Que sentiriam Vasco da Gama e os nossos Navegadores de quinhentos, perante um directo televisivo, ao pensarem nos largos meses de que precisaram para fazer a deslocação dessa zona até Lisboa, trazendo notícias da Índia para o seu Rei?

Pelo meio, lembro a minha viagem de 18 de Setembro de 1973, em que tomo o pequeno-almoço no Porto, almoço em Lisboa e vou jantar a Luanda… Foi a primeira vez que senti o desmoronar da distância e do tempo, o que o jovem de hoje, qual homem universal, desconhece.

 

2. A bola é importante, por estes dias, e o nosso mundo não seria o mesmo sem ela. Todavia, a bola é um simples motivo de decoração económica e cultural. O essencial é vermos o Homem, unificando o espaço pela caixinha que mudou o mundo, tornando-o uma Aldeia Global, na expressão feliz de McLuhan, e criando uma cadeia de união, em retrospectiva, até ao princípio dos tempos que, no caso africano, se situam no século XVI, muito por obra e às custas dos navegadores portugueses.

É oportuno lembrar a nós próprios e ao mundo a voz do poeta, F. Pessoa, em “Infante”:  “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. / Deus quis que a terra fosse toda uma, / Que o mar unisse, já não separasse. / Sagrou-te [a ti Português], e foste desvendando a espuma, // E a orla branca foi de ilha em continente, /Clareou, correndo, até ao fim do mundo, / E viu-se a terra inteira, de repente, / Surgir, redonda, do azul profundo.”

Mas é o mar quem conhece o preço que pagámos por esse atrevimento ou heroísmo, ainda, segundo a mesma voz poética pessoana, em “Mar Português”: “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó mar!”

De facto, se os Fenícios, Gregos e Romanos, reduziram o mundo ao horizonte de uma viagem, no Mediterrâneo e em breves incursões no Atlântico, foram os Portugueses, a Este e a Oeste, quem determinou as medidas desse mundo e informou a Europa da distância a que ela hoje se situa da África do Sul, pela acção de Bartolomeu Dias, em 1488.

A sua descoberta foi marcante na história da navegação e da libertação do homem da ignorância e do medo. Até então, o mundo dividia-se em dois, o bom e o mau, ou seja, o conhecido e o desconhecido. Com ela, surge a unidade na igualdade do conhecimento de raças, gentes e lugares.

Era o tempo da grandeza do homem, elevando-se acima da pequenez dos seus meios, o que hoje contrasta com a pequenez do seu espírito, esmagada pela grandeza dos meios aos quais acede: da comunicação ao transporte, da saúde à alimentação, do trabalho ao lazer. Na aparência, nunca o homem teve, exteriormente, tantas condições para ser feliz. Na realidade, é hoje que se lhe levantam mais barreiras para ser e crescer, interiormente, em dignidade e sabedoria.

Ao local e ao universal dos portugueses de quinhentos, espaços entre os quais tão bem viajaram, opõe-se-lhes, agora, o interior e o exterior deles próprios, em cuja viagem identitária eles têm tanta dificuldade em se afirmarem. Quem são e o que querem ser? Como poderão ser hoje melhores do que ontem e amanhã, ainda, melhores do que hoje? Como conseguirão vitórias, interiormente, sobre si próprios, mais do que, exteriormente, sobre os outros?

É esta unidade na diversidade do mundo e na superação actual do espaço, do tempo e das classes sociais, em igualdade construída diariamente que tento sobrepor, ao ver o Mundial na televisão.


3. Com efeito, não consigo ver o “jogo” sem o envolver em valores e realidades que um jornalista não pode esquecer, ao divulgar notícias, fazer reportagens, visitar lugares, narrar episódios, admirar monumentos em ruas, praças e praias.

Há um hino à Força e Inteligência de Mandela para cantar, um arco-íris de Beleza nos contrastes de África para elevar, um código de Valores do Homem africano, emigrante secular, exportado para outros continentes, para regressar a África agora, com as 32 selecções do futebol mundial.

Reveja-se o currículo da formação de jornalistas, se necessário for, mas não se perca a oportunidade de divulgar esta riqueza civilizacional e pedagógica em tempos de aridez comunicacional…

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real



publicado por Correio da Educação às 12:30
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