21-01

Inês Silva*

É certo que o século XXI mal começou. Dez anos em cem são simplesmente dez anos. Uma criança com dez anos é uma criança que completou ou está para completar o primeiro Ciclo do Ensino Básico, que gosta de gomas, de Pokémons ou de Barbies, e que adora desobedecer aos pais para ver até onde a corda estica. Já um idoso de 90 anos, prestes a completar um século, é um “saber de experiências feito”, que passa o tempo a prever quando chove e quando faz sol, que não chora perante a morte nem perante os maiores acidentes sociais provocados pela desatenção de um qualquer governo que o tenta governar.

 


Por isso, dez anos são dez anos e valem o que valem. Mas será que já é possível identificar alguns dos grandes intelectuais que vão ser designados os grandes pensadores do século XXI daqui a um tempo (aqueles que, tendo nascido no século XX, irão revolucionar o presente século)?

Recuperem-se, pois, alguns dos grandes pensadores do século XX com obra feita e apresentada ao mundo, nas várias áreas: Piaget, Saussure, Jean-Paul Sartre, Chomsky, Albert Einstein, M. Gandhi, Claude Lévi-Strauss… A lista é infinita, diversificada e cada individualidade foi única no seu tempo, singular no espaço eterno do mundo, conhecida na sua época e fora dela, citada, debatida, arrebatada, engrandecida… porque deu origem a uma pluralidade de conhecimentos atemporais que contaminaram positivamente as áreas do humano, do social, da ciência e da tecnologia. Os seus efeitos sentiram-se no século que passou e sentir-se-ão igualmente nos vindouros. São eles citados por intelectuais de vários domínios, servem de suporte a diversas teorias e proporcionam a interdisciplinaridade. Não se circunscrevem a um tempo, a um espaço, nem a uma área do saber. Foram heróis solitários que souberam compreender, à sua maneira, os enigmas do mundo, porque os analisaram de forma única e exemplar. As ideias geniais que tiveram foram como que “abençoadas” pelos seus discípulos, adoptadas por fiéis seguidores e vivificadas eternamente por todos os que se sustentam do conhecimento.

O grande pensador do século XXI corre sérios riscos de nunca vir a ser como os exemplos que apresentei, porque entendo que as suas ideias podem nunca vir a ser grandes e o herói solitário pode efectivamente vir a morrer (se não está já morto).

Vive-se numa época em que não há ideias porque estas não são conhecidas transversal e interdisciplinarmente pelo conjunto das diferentes áreas científicas e pelas diferentes comunidades culturais. Vencem, sim, fragmentadas, em disciplinas isoladas. Se não há transferência de saberes de uma área para outra não é com certeza por falta de comunicação a nível da “global village”, uma vez que as informações nunca correram o mundo tão depressa como no tempo em que se vive. O problema pode ser outro: se uma grande ideia não se ajusta a um outro campo de conhecimento que não o seu de origem, ela poderá não ser uma grande ideia.

Há também uma outra questão: parece, pois, que está tudo dito, feito e pensado. Quando surge algo de novo, um simples dito, uma ideia, uma concepção ou uma teoria, passa-se à sua formulação, quer através da escrita quer através do discurso oral, sendo certo que é para o seu autor plausível e comprovável, mas, depois de aprofundado e de integrado no universo de conhecimentos de que faz parte, verifica-se que alguém já tinha feito tal construção ideológica, já a expusera, já a publicara… Talvez não daquela forma mas de outra.

Vamos, por exemplo, aos textos que surgem nos dias de hoje: o que dizem já foi dito, o que exemplificam já passou, o que reivindicam já foi ignorado em tempo idos. Assim sendo, o que ainda nos faz sorrir ou ficar aborrecidos ou extasiados perante um texto escrito é o tom tomado em cada um pelo seu autor, num estilo surpreendente, ingénuo ou elevado.

Passando dos textos à sétima arte, deve ser cada vez mais difícil para um argumentista em Hollywood prender a atenção do público pelo argumento que vai servir a imitação na tela. Todos os cenários de guerra, de destruição, de poder, passando pelos de ficção científica, até chegar aos encontros e desencontros familiares e amorosos, já foram ensaiados em filme. Nas séries que passam consecutivamente em canais como Fox e AXN, entre outros, há o grupo dos maus e o dos bons, o dos médicos legistas e o dos polícias forenses, a solução para tudo e para nada. Muito do que sucede é mais ou menos previsível mas nunca inimaginável.

É também certo, e voltando à ciência, que os investigadores criam o expectável, o que é necessário para o momento, o que faz falta, o que é dito por alguém nos termos: “nunca mais inventam …”, o que é imediatamente pensado ou feito. Há também os que pegam no que os do século XX engendraram, sendo estes os mestres, os professores, os intelectuais, os sábios, e seguem as suas pegadas, contestando, melhorando, refutando, mas nunca perdendo o rasto inicial. Contudo, os movimentos não são criados de raiz, mas são adaptações, acrescentos, reconstruções do que já existe – no fundo, trata-se de “a última versão de…” / “um novo olhar sobre…” / “contributos para o estudo de …”.

O pensador é aquele que procura a ideia certa para desvendar o enigma do mundo, ideia essa que é bebida por todos os que têm sede de conhecimento, seja de que área de especialidade for. É, pois, aquele que pensa. Talvez por isso não tenha a sorte de vir a ser um grande pensador porque se vive num século em que pensar é considerado um acto pecaminoso: as pessoas não pensam porque alguém já pensou por elas e essas ideias estão todas no Google (é só procurar!); as pessoas não pensam porque podem contrariar os mestres de agora (infelizmente alguns são o oposto dos do século XX); as pessoas não pensam porque podem romper com o “politicamente correcto”; as pessoas não pensam porque podem deixar de seguir “tendências e modas”; as pessoas não pensam porque podem perder o emprego. Por isso, o século XXI é o século do “Ai daquele que pensar!”

Está-se à espera dos grandes pensadores do século XXI, que virão um dia a ser conhecidos como tal. Possivelmente alguns já nasceram. Mas o espaço é fechado para a grande ideia e o tempo perigoso para o herói solitário. Há, contudo, que olhar para os mais novos e encorajá-los a contrariarem esta tendência, antes que o século XXI dê lugar ao século XXII. Cem anos passam depressa e ninguém quer que o século XXI seja o século do vazio.


*Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras. É docente no Externato Cooperativo da Benedita.

 



publicado por Correio da Educação às 00:07
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5 comentários:
De Shere W. a 9 de Setembro de 2010 às 04:13
Sebastião Formosinho em Portugal foi ridicularizado quando apresentou a idéia da sobreposição de elétrons; Feynmann e Bohr previram que pelos Anos 80 deveria surgir um guri à altura da tarefa de revolucionar a Física e também, por extensão, a mentalidade humana até então.
Muito Bem. Em 1985, um moço chegou nos centros de pesquisas e universidades com uma exposição de idéias nomeada por ele de Lógica Estrutural do ESPAÇO, ou simplesmente, Lógica Espacial. Nada menos que revolucionários tomos pra utilidade em todas as áreas do Conhecimento Humano; porque abarcavam conceitos, princíoios, leis, diretrizes, numa concatenação que ía da poesia à rigorosa representação nuclear de vetores-bolha. Uma simplicidade a bailar nas raias paradoxais da complexidade. E então? Os nocivos tutores das crenças se alertaram que um estudo assim abalaria suas posições parasitas da espécie humana, cargos que dependem da imposição de condições miseráveis de vida na Sociedade para se perpetuarem em sua incompetência e estupidez insana. Hoje, em pleno século XXI, o Pensador Haddammann consegue escapulir em cada segundo de sua vida para não ser mais ainda desgraçado por esses covardes.
Mas se quiserem ter uma noção da espetacular e fenomenal obra desse Pensador é só digitar o nome no Google, ou o correspondente, Athan Gene.


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De Hona a 28 de Junho de 2014 às 16:44
O Pensador Haddammann já não utiliza mais o codinome citado aí no comentário da Shere W.; pois depois dos protestos no Brasil e da subida da oposição de Aécio Neves no Brasil, surgiu condições de um cidadão estar menos visado e prejudicado pela "guvernança" que vem destruindo o viver dos brasileiros. Agora, se querem se inteirar de estudos e publicações do Pensador Haddammann Veron Sinn-Klyss digitem Sinn-Klyss--Expressão de Uma Mentalidade no Google.


De Louboutin pas cher a 6 de Maio de 2014 às 07:58
Né des grands penseurs de la vingt-et-unième siècle?


De Anónimo a 12 de Junho de 2014 às 18:32
não entendi


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