17-03

Inês Silva*

Surgem escritas centenas de frases por ano lectivo sobre a vida de um professor, a avaliação a que está sujeito, as suas atitudes, conhecimentos, passando até pelo seu dia-a-dia, férias, entre outros aspectos importantes ou não. Mas o dito mais curioso ouviu-o eu em plena sala dos professores no início de uma destas manhãs, proferido em tom de lamento por um docente nem muito novo nem muito velho, mas a meio de um percurso do qual já deseja o fim. Disse simplesmente: “sinto que não contribuo em nada para o bem da sociedade”.

 

           Surpreendente a verdade com que o disse, fruto de uma ponderação que vem a ser feita desde há algum tempo, reveladora da intervenção da razão misturada com o sentimento mais puro. Parece constituir um desabafo advindo da frustração sentida por causa da sua actual missão – dar as aulas o melhor possível, mas que não é o mesmo que ensinar. Ensinar pressupõe contribuir para a mudança, uma vez que significa levar a aprender, a saber fazer alguma coisa, a ter certas capacidades e conhecimentos. Ora o testemunho do professor mostra que a sua profissão está longe de ser a de ensinar alguém, talvez porque ele sinta que não é agente da tal mudança. Entre o objectivo de dar aulas a alguém e ensinar alguém vai um percurso imenso, que importa exemplificar.

Vejamos o caso do ensino da ortografia. Todo o professor que se preze, seja ele das disciplinas das ciências, das artes ou das humanidades, ensina o seu aluno a escrever de acordo com o código ortográfico vigente no seu país. Mas há aqueles que consideram que o ensino da ortografia é da exclusividade do professor de Português, assim como há os que não sabem as regras veiculadas por esse código (e por isso não o podem ensinar) e ainda os que não querem saber. E a prova disto é a quantidade de alunos que saem todos os anos das escolas e universidades a dar erros ortográficos. Aliás, os erros estão por toda a parte, e não só nos cadernos, testes e textos produzidos na escola pelos seus agentes: encontram-se também nos cartazes, nas paredes, nas legendas televisivas, nos documentos ditos oficiais, nas montras, nos jornais, nas revistas – logo, a missão do professor de ensinar ortografia não tem sido cumprida porque todas as pessoas que não a conhecem passaram pela escola.

Mas os professores que pretendam ensinar verdadeiramente a ortografia (e desta forma contribuírem para o bem da sociedade, dado o importante papel conferido à escrita no mundo actual), vêem-se a braços com um enorme problema: que ortografia ensinar? A situação é esta: não se pode avançar com a explicitação de regras do novo Acordo Ortográfico porque o Ministério da Educação nada disse, até ao momento, sobre a entrada da nova norma ortográfica nas escolas do país, como se não fosse ele o organismo oficial a quem cumpre regular a sua implementação, preparar o terreno para que isso aconteça, formar professores e actualizar manuais (tudo isto com o devido tempo); além disso, os alunos são testados no final dos ciclos por provas e exames externos cujos critérios de correcção contemplam descontos para o erro ortográfico, sendo “erro” o que foge da norma que está em vigor. No entanto, algumas escolas particulares do primeiro ciclo já começaram a ensinar as regras do novo Acordo Ortográfico; a comunicação social está aos poucos a actualizar-se e os alunos lêem diariamente estes textos, sendo mesmo alguns analisados em aula… E o professor é assaltado por muitas dúvidas como estas: o que fazer quando o aluno escreve “sexta-feira” com minúscula, tal como viu num blog que consultou na noite anterior? Valerá a pena insistir nas regras de um acordo diferente do que vai ser incluído brevemente no currículo? E isto a partir de quando? Não só os professores têm dúvidas, mas também formadores e autores de manuais, cujo trabalho é o de didactizar o que está em vigor – mas quando o que está em vigor é o vazio, a desorientação, o que fazer? Deverão incluir-se, nos compêndios e manuais, textos dos media que foram escritos seguindo a nova norma? Não irão confundir os alunos que estão a aprender a outra? Por vezes, uma data não interfere com o ensino, contando-se com a autonomia, sabedoria e experiência de muitos professores, mas neste caso faz toda a diferença. Assim sendo, o professor não ensina – dá umas aulas de ortografia.

Um outro caso que impede o professor de ensinar é a desorientação existente em termos programáticos, em certas disciplinas, cujos programas estão envoltos em orientações programáticas, terminologias, projectos curriculares, revisões (também elas já revistas e actualizadas) e outros documentos afins enviados pelas várias equipas ministeriais para as escolas, que por sua vez os fazem chegar aos professores (ou não, porque a papelada é tanta que entretanto escapa alguma coisa). Aí, os docentes procuram ler os documentos, reúnem-se em grupos disciplinares, procuram planificar as suas aulas juntando toda a documentação, até que chegam ao ponto de optarem por dar umas aulas porque já perderam o rasto da teoria certa que deveriam definir junto dos seus alunos ou da experiência concreta que deveriam pôr em prática. É o caos. Sabe-se que a formação dos professores, quer científica quer profissional, é muito díspar e depende da Universidade ou Instituição em que foi feita; sabe-se que o professor deve ser autónomo e sabe-o ser, mas a autonomia advém da certeza do que se quer fazer, logo necessita de um programa disciplinar específico e claro que oriente a sua acção junto dos alunos. A didactização fica por sua conta. Quando o programa falha, falha a didactização.

A actual situação da disciplina de Português para o básico parece servir de exemplo concreto para tudo o que foi dito: um professor, ao planificar as aulas para o 4.º ano, por exemplo, põe em cima da mesa o Programa de Língua Portuguesa de 1991, o Currículo Nacional do Ensino Básico, o Programa Nacional de Ensino do Português, em curso desde 2006 (sobretudo para o 1.º ciclo) e o Plano Nacional de Leitura, caso não tenha ficado nenhum documento esquecido. Outro exemplo: um professor do básico ou do secundário, que tenha dúvidas quanto a certos conteúdos do conhecimento explícito da língua, recorre às várias gramáticas tradicionais, mas, como a maior parte das vezes fica com a questão por resolver, consulta o Dicionário Terminológico de 2008 (não estando muito clara a ideia se o deve fazer ou não no momento presente), que é uma revisão da TLEBS 2004. Sendo assim, um professor que pretenda classificar palavras do português, depois de sistematizar com os alunos as suas características morfológicas, sintácticas e semânticas e a sua colocação na frase e no texto, poderá fazê-lo de diferentes formas. Na frase “Intuitivamente, senti-o entrar”, “intuitivamente” é um advérbio de modo para o professor x, um advérbio disjunto para o professor y (que ainda não consultou a revisão da terminologia) e um advérbio de frase para o professor z.

Não vale a pena dramatizar, se se pensar que um simples advérbio é um exemplo menor. Mas um conjunto de exemplos menores fazem com que o professor não ensine morfologia, nem classes de palavras, nem isto nem aquilo. E para maior obscuridade e incerteza no ensino, vêem os professores de Português suspensa a entrada em vigor dos Novos Programas de Português para o Ensino Básico de 2009, proposta há muito para 2010. Talvez para se acrescentar ao título os adjectivos “Revistos e Ampliados” (por outros apêndices, metas e afins).

Outros casos poderiam ser ainda apresentados: o que fazer nas aulas de substituição? O que fazer nas aulas de Formação Cívica? O que fazer, para além de se dar tempo e espaço aos alunos de engendrarem aviões de papel, de os enviarem uns aos outros, como mostra de que o que lhe apetecia mesmo era ir nesse avião para outro mundo?

O (des)ensinamento por parte do professor, a frustração de que não ensina e a certeza de que não contribui para o bem da sociedade deve-se em muito a quem tem a missão maior de Programar, Dirigir, Direccionar. Até que haja quem o consiga fazer, “Tudo é disperso, Nada é inteiro”. Mas os anos passam e o futuro poderá trazer uma frustração nacional mais profunda: a de ninguém querer ser professor, nem mesmo para dar aulas.

*Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras. É docente no Externato Cooperativo da Benedita.



publicado por Correio da Educação às 15:17
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

5 comentários:
De Maria Celeste a 30 de Março de 2010 às 14:45
Apreciei o artigo, mas, logo no primeiro parágrafo, fiquei surpreendida ao ler: «ouviu-o eu » ... E perguntei: "mas quem ouviu?" - Eu ouvi, tu ouviste, ele ouviu... ou eu ouvi-o, tu ouviste-o, ele ouviu-o...
Estarei eu confundida?


De Anónimo a 31 de Março de 2010 às 14:09
Olá, Maria Celeste:

"Ouvi-o eu", claro. Peço desculpa pela incorrecção!
Inês


De Norberto a 5 de Abril de 2010 às 16:37
Excelente reflexão, mas acho que cabe aos professores dar um rumo à sua profissão, nestes tempos conturbados, pois acho que está claro que o Ministério não consegue, não quer ou não acha pertinente...
Decidam nas vossas escolas o que ler, o que ter em conta e mandem tudo o resto para a reciclagem, pois há que ser ecologista...


De Emprestimo a 17 de Janeiro de 2011 às 17:24
Adorei o blog, conteúdo muito bem escrito, layout bacana com cores amigáveis. Vou aproveitar e adicionar o blog nos meu favoritos. bjs! Maria Cecilia


De Purchase Essay Online service For UK a 8 de Agosto de 2016 às 13:16
Well! This sort of activity is profitable for kids in light of the fact that in school they do any activity with bliss rather than home or assembling. Moreover, development is basic for, yet doesn't depend on upon our life they are set up in a most perfect way by which they can make do without.


Comentar post

CONTACTOS

ce@asa.leya.com
pesquisa
 
Correio Disciplinar
Ciências Sociais e Humanas
Línguas e Literaturas
Ciências Exatas e Experimentais
Expressões
Escola em destaque
Escola Secundária Alcaides de Faria
Agenda


arquivo
Ligações
Parceiros
subscrever feeds