17-05

Paulo Ferreira da Cunha*

 

 

“O livro há-de ser do que vai escrito nele”.

Bernardim Ribeiro, Menina e Moça

 

 

 

Mais um prefácio! – exclama o leitor. Que significará essa exclamação?

Há leitores deles curiosos. Outros abominam-nos.

Em geral, procura-se num prefácio não verdadeiramente um resumo da obra, nem a biografia e a bibliografia do autor (ou, eventualmente, do ou dos que motivam a mesma), mas algo mais pessoal ainda. Como que se espera a voz directa que se pode aí, e só aí, libertar do distanciamento necessário da ficção (sempre ficção, mesmo em ensaio ou tratado) firmada pelo pacto de leitura que se entretece com o leitor no corpo da obra – e que sempre obriga a maior decorum.

Curioso: quando o prefácio não é do próprio autor, dir-se-ia que o prefaciador, autor convidado em obra que não é sua, fica com permissão de dizer o que o autor não pode. Ou quiçá até outra coisa, diferente do que ele diria. Peso nada leve sobre os seus ombros.

Há ainda leitores que se entediam com prefácios: querem ir direito ao assunto. Ora esses não vão ler-nos: este artigo obviamente lhes não interessa, e por isso poderemos não os contemplar aqui. Meio caminho andado, pois o seu número pode ser considerável.

A sina dos prefácios sempre nos intrigou e fascinou. Pode-se ser autor de muitas coisas, mas autor de prefácios é coisa que nunca ninguém aspirou a ser. Camilo foi autor de muitos e excelentes prefácios, mas não é um prefaciador... Talvez Borges, na sua Biblioteca Pessoal, possa dizer-se prefaciador, ainda que tenha muito mais facetas.

Portanto, não se diga que se é prefaciador como se diz que se é poeta, ou romancista. E contudo ele há prefácios notáveis, até no Direito – como esse mítico prefácio de um mestre coimbrão que, por ironia da sorte, acabaria por se transformar em tese de doutoramento.

Embora não se façam prefácios para se ser prefaciador, o prefácio é lido e literariamente considerado. Bela consolação para os prefaciadores, em tempos de furioso contabilizar de avaliações académicas, em que se esquece Quis custodiet ipsos custodes?

Quem, intelectual minimamente solicitado, não experimentou já, relativamente aos prefácios, um espectro multicolorido de sentimentos? Desde os de indiferença e bocejo, relativamente aos enormes e sensaborões, até à remoída inveja de Fulano ter sido prefaciado por Beltrano, e ainda a vaidade, por ter sido convidado para prefaciar Tício, ou de enfado e enorme embaraço, por o terem – sem hipótese de recusar – forçado a escrever prólogo para Semprónio.

Já Bernardim Ribeiro (i.e., o autor de Menina e Moça, ou Saudades), no séc. XVI, falava do carácter supérfluo dos paratextos preliminares. O conteúdo, esse sim, deveria ser julgado, e não o embrulho de um arauto do mesmo, cheio de complacências de prefaciador alheio, ou de desculpas do próprio autor.

Mas um prefácio não serve de arauto, nem de elogio. Um prefácio serve de diálogo e de ponte entre o leitor e o autor e o assunto. Quem é o encenador da peça é o prefaciador. Grande poder, esse. E grande responsabilidade, sempre. A de pontifex...

Por se intuir esse poder e essa responsabilidade é que ser prefaciado por quem se deve, e prefaciar quem se gostaria são tesouros invejáveis e invejados na República das Letras.

Interessa assim tanto o frigir dos miolos para prefaciar? Um prefácio pode ser um outro estudo. Mas isso é aproveitar espaço para criar de novo. O prefácio, no seu caso comum, vale não tanto pelo que se diz, mas o facto de dizer-se. De existir. Conta o facto de se apor uma assinatura a um texto, que vem antes do sumo da obra, e de tal texto, de uma ou de outra forma dizer isto: «Eu, fulano de tal, prefaciador, fui incumbido de testemunhar, como seu primeiro leitor, que esta obra é digna de muito boa atenção, que seu autor é merecedor de extremo crédito, e que o tema, além de digno, está tratado eximiamente».

Dito isto (isto pressuposto: há muitas formas de o dizer), tudo são exemplos. É claro que neste rol de itens, alguns poderão faltar, absoluta ou parcialmente. Raymond Aron confessou que fazia o prefácio do Traité de sociologie générale, um mastodôntico cartapácio da autoria de Vilfredo Pareto, sem ter lido a obra por completo. Foi corajoso. Embora então já estivesse naquela posição que permite dizer o que apetece.

Um dia, pedimos um prefácio a um grande professor, o qual, depois de ter demorado muito, fez um ensaio autónomo sobre o tema da obra, e rematou, com algo como esta tirada genial: «Não sendo esta a perspectiva do autor, não deixa de merecer uma muito atenta leitura». Surpreendente, mas legítimo.

Tal não é, porém, caso normal. A identidade de pontos de vista, ou, pelo menos, a confluência, é de tal forma evidente, que os mais rigoristas ficariam preocupados com questões de deontologia. Honni soit qui mal y pense... Quantos prefaciadores fariam declaração de «interesses» (que obviamente não precisavam de ser feitas)?

Ocorre uma afinidade entre pessoas que, podendo no limite nem se conhecer pessoalmente, um dia contactaram pelas suas obras, e descobriram que, por terem almas certamente comunicantes, por haverem lido algumas obras comuns, por terem visto no grande livro do mundo coisas que os levaram a conclusões semelhantes, por isto, por aquilo... chegaram a conclusões próximas, militaram por causas idênticas, têm dos Homens e da vida uma perspectiva afinal muito comum. E isso é extraordinariamente belo, e digno de nota. Porque se não trata de psitacismo, nem de aproveitamento, nem de imitação.

Nas Ciências Sociais e Humanas, o paradigma da influência não tem demasiado cabimento. Sabemos, com Harold Bloom (The Anxiety of Influence, Nova Iorque, Oxford University Press, 1973), que são os influenciados a escolherem os influentes.

Não nos esqueçamos que um prefácio é uma das provas (se não a prova) mais alta de fidelidade ou de magnanimidade intelectual, de eleição num caso, de reconhecimento, no outro.

Diz-me quem prefacia os teus livros, e a quem prefacias tu: dir-te-ei quem és.

*Paulo Ferreira da Cunha – Professor Catedrático de Direito da Universidade do Porto, Professor Catedrático Convidado de Direito da Universidade Lusófona; Colaborador especial do As Artes entre as Letras.

Trata-se de um jornal cultural, sob a direcção de Nassalete Miranda, cujo primeiro aniversário se celebra a 20 de Maio, pelas 18h30, na Biblioteca Almeida Garrett, Porto, com intervenções do Professor Salvato Trigo, do Dr. Miguel Veiga e da Dr.ª Nassalete Miranda.



publicado por Correio da Educação às 12:49
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