18-06

Carla Marques*

Ou da estranha inversão entre os meios e os fins

 

Ao longo de todo um ano lectivo marcado pela expectativa da mudança, por alguma ansiedade e por muito marasmo, os professores aguardaram com a paciência possível as decisões da tutela. Estas revelaram-se escassas, foram lançadas a conta-gotas, desencontradas e avulsas, deixando os professores a suspeitar da possibilidade de um projecto maior, concebido na penumbra para ser lançado quando menos se espera ou quando as atenções se centram noutros interesses…

Sem entrar na teoria da conspiração, gostaríamos, todavia, de reflectir sobre uma das mais “inovadoras” medidas levadas a cabo pela actual equipa ministerial (dando aliás continuidade a um projecto da anterior equipa): a certificação das competências TIC.

Esta nova realidade merece algumas reflexões:

 

1. Todos os professores têm de ser detentores de um conjunto de competências TIC, das quais devem fazer prova, para que possam ser certificados.

Esta certificação não contempla o saber de “experiência feito”, que resulta do contacto diário com os mais diversificados meios digitais. Muito docentes aprenderam fazendo, experimentando, trocando impressões com os colegas e até com os alunos. Este saber não é certificável, segundo a legislação em vigor!

Muitos docentes deram os primeiros passos na informática ainda na década de 90 e, tendo adquirido as bases fundamentais, desenvolveram o seu percurso de forma autónoma. Este percurso não é certificável, segundo a legislação em vigor!

 

2. Os professores que não comprovarem ser detentores de competências TIC ou cujas competências não sejam certificadas deverão frequentar cursos de formação que lhes confiram as referidas competências.

Muitos professores frequentaram já acções de formação em TIC de boa qualidade e até dotadas de algum interesse. Mas, muitos professores conhecem também muitas outras acções de formação em TIC, onde o saber transmitido é pardacento, os conteúdos amorfos, o tecnicismo insuportável. Muitos vivenciaram já a metodologia do “experimente você”, que ocupa longas horas da formação e que, facilmente, poderia ter sido desenvolvida em casa, em horários mais favoráveis e quiçá com uma concentração mais apurada.

Por tudo isto, não resistimos a perguntar: é deste modo que vamos desenvolver as competências TIC? É deste modo que nos “certificamos”? Sim, segundo a legislação em vigor!

 

3. As competências TIC deveriam funcionar como um recurso pedagógico e didáctico para o desenvolvimento das estratégias de ensino. Quantas acções de formação estão vocacionadas para as especificidades particulares de cada disciplina? Muitas ficam-se por generalidades e até por inutilidades.

E perguntamo-nos: se não for o professor a empenhar-se, a desenvolver projectos específicos para a sua disciplina, tendo em conta as particularidades dos seus alunos, para que servem as competências TIC? Esse assunto não está contemplado na legislação em vigor!

 

4. Promove-se a formação em áreas TIC num ano em que a formação em domínios específicos das diferentes disciplinas ficou subalternizada ou quase não existiu. E perguntamo-nos de novo: não resultará esta estratégia de um estranho conceito de “eduquês” (como agora se usa dizer) que subordina os conhecimentos efectivos associados a cada disciplina às estratégias TIC? Irrelevante, segundo a legislação em vigor!

Não gostaria de pensar que para o Ministério da Educação os conteúdos se situam cada vez mais num plano secundário, subordinados à imponência dos Planos Tecnológicos, dos “Magalhães”, dos computadores portáteis para professores e alunos, dos quadros interactivos, das câmaras e de toda uma parafernália que só causa ruído e confunde, ofuscando o verdadeiro objectivo do ensino. A aposta nas competências TIC é estruturante, segundo a legislação em vigor!

Um aluno interpreta melhor um texto se o vir projectado no quadro interactivo e ser vir partes desse texto passearem-se pelo quadro numa animação “bué da gira”?

Um aluno compreende melhor uma equação se a vir montada e desmontada numa apresentação flash “espectacular”?

Um aluno fará uma melhor apresentação oral do seu trabalho se usar uma apresentação em power-point “muita gira”, que acabará por ler do princípio ao fim para gáudio da audiência que se deixará embalar pelas animações “muita loucas”, pela música de fundo “demais” e pelas imagens “muita fixes”?

A legislação em vigor não se debruça sobre estes domínios!

 

Não tenhamos ilusões! As ferramentas TIC são meios e nunca poderão ser fins em si próprias. O aluno só aprenderá se quiser aprender e se o professor ensinar, na verdadeira acepção do termo! As TIC serão muito úteis enquanto meios, mas nunca se poderão substituir ao conhecimento que a escola tem por missão transmitir.

Se continuarmos a confundir os meios com os fins, corremos o risco de transformar as nossas escolas em centros educativos de animação e entretenimento, onde as crianças se sentem muito felizes porque vêem coisas bonitas e porque… não precisam de desenvolver qualquer esforço ou sequer de pensar!

Esta é a grande questão que se coloca no momento actual. Não podemos ser levados pelo marasmo ou pelo acriticismo. Devemos reflectir seriamente sobre o que se pretende para a escola pública ou então… “certifiquemo-nos”! E já agora venham as pipocas!

Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 12:16
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19 comentários:
De LT a 30 de Junho de 2010 às 19:33
Até que enfim que alguém põe "o dedo na ferida". A autora está coberta de razão. Parabéns.


De inew i4000 a 9 de Junho de 2014 às 11:47
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De Maria Castro a 30 de Junho de 2010 às 22:05
Concordo plenamente!


De Laura Morgado a 30 de Junho de 2010 às 22:54
Parabéns à autor!
Tudo o que foi dito sobre as competências Tic corresponde à realidade.

A experiência obtida em qualquer domínio da profissão de professor, de nada serve para a nossa tutela.
Pensemos só um bocadinho na avaliação...e nas aulas assistidas!!!


De Anónimo a 30 de Junho de 2010 às 23:58
o computador quando avaria aranjo-o eu.
O telemóvel quando avaria arranjo-o eu.
Uso o computador para cálculos científicos.
aprendi como Leonardo da Vinci ou Edison ou Faraday.
Não tenho certificados mas tenho inteligência, mas parece que para o ME isso não tem valor.
Parece-me que outros valores estão por detrás do assunto, negócios.
Acho que daria uma boa investigação "Computador Dourado".


De VV a 2 de Julho de 2010 às 00:24
Se LT me permite, também direi...até que enfim!!
Felizmente ainda há pessoas, e certamente muitas, que julgam ser importante pensar e não apenas executar alguns comandos de índole básica, do género 'copy/paste' e outros mais ou menos similares.
(Ressalvados que sejam os casos daqueles que utilizam o computador como um meio de reflexão/optimização, contribuindo para um processo de aprendizagem.)


De Fernanda a 2 de Julho de 2010 às 09:10
Haja quem ilumine uns espíritos em escuridão.
Parabéns pelo artigo.


De João Alves a 2 de Julho de 2010 às 17:28
Com excepção do penúltimo e antepenúltimo parágrafos, discordo desta análise, na media em que ela revela desconhecimento da autora relativamente ao que significa ensinar com TIC. Penso que está enganada no que diz respeito aos objectivos do programa de formação no âmbito do PTE, na medida em que as acções que estão, por exemplo, a decorrer sobre os quadros interactivos incidem precisamente na didáctica específica, ponto em primeiro plano a utilização pedagógica deste instrumento em detrimento do seu conhecimento técnico. O que interessa verdadeiramente é aquilo que o professor é capaz de fazer com os meios que tem ao seu dispor, sejam tecnológicos ou não. Se um bom professor souber tirar partido dos meios que tem ao seu dispôr, pode melhorar ainda mais as suas aulas, no sentido de ajudar melhor os seus alunos a aprender. O objectivo da formação que está a decorrer é precisamente dar oportunidade aos bons professores de poderem ser ainda melhores professores, porque os maus, esses serão sempre maus, com ou sem meios TIC.


De www.escola.diferentenet.com a 2 de Julho de 2010 às 17:30
Concordo com tudo o que disseram!

Mas o despacho que determinou a certificação e o projecto, prevê uma certificação de nível 2 baseada em portefólio profissional!

Está por legislar, mas faz parte do nosso papel fazer pressão!

Se já há certificação de competências no ensino básico e secundário... haja coragem!


De Cândido Pereira a 2 de Julho de 2010 às 17:53
Toca aqui, Carla! Nice!
Não posso dizer que concordo com tudo o que escreveste, mas tocaste bem no fundamental.
Como professor de ciências preocupa-me ver que a cultura do espectáculo ganha cada vez mais terreno à cultura científica. Enquanto cidadão não me conformo com o facto do poder estar entregue a um punhado de medíocres que bóiam nas águas dos tempos, dada a sua baixa densidade.


De Maria Elisabete Machado a 3 de Julho de 2010 às 20:18
Excelente! Tem toda a razão! Felizmente, professores e alunos já perceberam isso, dó o Governo é que não. Precisam de vir para o terreno e ensinar...isso queria eu ver!


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