08-03

Carla Marques*

Os professores de Português foram recentemente confrontados com a suspensão da entrada em vigor dos Programas para o Ensino Básico. A decisão criou uma onda de espanto e de incompreensão, sobretudo por parte dos professores que investiam já numa preparação séria do próximo ano lectivo. As razões avançadas para a decisão tomada, vagas e titubeantes, também não contribuíram para a aceitação da tomada de posição do Ministério da Educação como algo inevitável e inquestionavelmente benéfico.

 

            A reacção dos professores deve-se, na minha óptica, sobretudo a dois factores essenciais que a decisão do Ministério não acarinhou: a dinâmica criada em torno dos Programas de Português e o cuidado na preparação para a sua entrada em vigor.

A elaboração dos Programas de Português foi da responsabilidade de uma equipa nomeada pelo Ministério da Educação, sob coordenação do Professor Doutor Carlos Reis, que se fez acompanhar por um conjunto de professores com experiência de ensino em diferentes ciclos escolares. Estes programas surgem assentes em linhas estruturais que colheram da parte da classe docente uma aprovação consensual: a recuperação da importância da Literatura no espaço da sala de aula e o retorno ao ensino da gramática, em si mesma e como conteúdo transversal. A filosofia estruturante dos Programas contou com a experiência adquirida com os programas de 1991, com estudo desenvolvidos, com o parecer de especialistas em diferentes áreas do conhecimento, abarcou o novo Dicionário Terminológico (que resultou de uma revisão da TLEBS, que aparentemente colheu um maior consenso – ou estaríamos todos distraídos, julgando que tudo neste país está condenado a não avançar?).

As notas mais críticas aos Programas são conhecidas, sendo umas mais justas do que outras, entre elas recordamos as seguintes: a não especificação da filosofia de avaliação que enquadra a sua operacionalização; a organização por ciclos de ensino, deixando a cargo do professor a anualização; o número de obras de leitura integral propostas por ano (tanto em termos de gestão temporal como de aquisição das referidas obras por parte dos alunos); a extensão do programa, que dificilmente seria cumprido com uma carga horária de dois blocos semanais de noventa minutos; as propostas de trabalho oficinal de difícil operacionalização em turmas com muitos alunos.

Para alguns destes entraves procurou encontrar-se solução a nível central. Considerou-se que outros faziam parte da esfera individual do professor. A autonomia outorgada aos docentes permitiria encontrar soluções à medida de diferentes situações e de realidades específicas. Um novo programa implica sempre dificuldades, mudança e disponibilidade para novos desafios. Os professores predispunham-se para tal.

Noutro plano, o Ministério da Educação encetou um plano de formação a nível nacional que não tinha antecedentes no ensino do Português no nosso país. Pretendeu-se formar um conjunto de formadores que promoveriam em todo o país uma onda de reflexão e análise de modo a que a operacionalização dos Programas pudesse acontecer em sintonia com o seu espírito, de modo a que os professores se sentissem acompanhados e, logo, seguros nas suas opções didácticas. Os professores iniciaram, com um ano de antecedência, a preparação para a implementação dos anos iniciais de cada ciclo. Um conjunto de professores oriundos de inúmeras escolas do país recebeu formação junto dos formadores centrais e, por seu turno, promoveu reuniões quinzenais com os professores das suas escolas. Houve reacções adversas, descrenças, mas, gradualmente, os professores começaram a trabalhar em conjunto, preparando, com uma antecedência inédita, o próximo ano lectivo.

Num momento em que a máquina estava a começar a funcionar, numa fase em que os professores começavam a deixar para trás a fase do “estranhamento” ao programa para se começarem a apropriar dele, pára-se toda a engrenagem.

Há quem aplauda a coragem, há quem critique as intenções, há quem seja sempre contra toda e qualquer mudança… razões e emoções à mistura. Porém, mais uma vez, as atenções desviaram-se dos verdadeiros agentes de implementação de qualquer reforma: os professores. Se estes não acreditarem na mudança, se estes não a tomarem como sua, todos os decretos, leis e portarias cairão por terra. A promoção da mudança é praticamente um acto de fé. Ora, no auge da motivação cristalizou-se tudo em nome de algo melhor do que já está feito e que ainda não foi experimentado.

Estamos muito cansados de investir em novidades que ficam na gaveta… Agora querem que a seguir acreditemos em quê? A motivação é fluida e nunca encontraremos dois momentos iguais. As condições que se criarão mais à frente serão melhores? Procura-se fé e motivação… Quantas vezes mais teremos de começar para adiar? Não há momentos perfeitos, não há condições ideais, não há programas imaculados!

As intermitências do Português matam-no suave e pungentemente.

*Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 16:17
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3 comentários:
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